Ensaio de uma Mensagem de Ano Novo para a Cultura
A mudança de ano é um momento de balanço, de olhar para trás e de analisar o que se conseguiu concretizar, e o que ficou por fazer. Nesta altura, a introspecção, a reflexão e até alguma melancolia apoderam-se de nós e surgem questões como: o que somos hoje, o que fomos no passado e o que queremos para o futuro?
Mais do que a reflexão pessoal importa agora e aqui deixar algumas palavras sobre a nossa Cultura (no seu sentido amplo e integrador das várias artes e dos vários patrimónios). Muita coisa tem sido dita e escrita sobre a importância da cultura. Socorremo-nos de algumas dessas reflexões para esta mensagem, que se deseja de esperança para o novo ano de 2015.
Marguerite Duras tem uma afirmação que importa referir nestas notas em que nos diz que a cultura deve ser uma descoberta individual de cada um de nós. Fala-nos de um percurso solitário e escondido, e diz mesmo “não se deve intervir” neste processo, ele tem que vir de dentro.
Thomas Mann, por sua vez diz-nos que a “cultura não se adquire, respira-se” e diz-nos mais: “Ninguém pode adquirir o que não possui ao nascer, nem ambicionar o que lhe é estranho.”
Almada Negreiros numa reflexão semelhante sobre o conceito de cultura afirmava que “A civilização é um fenómeno colectivo. A cultura é um fenómeno individual. Não há cultura sem civilização nem civilização que perdure sem cultura.” No seu ensaio reconhece que esta passagem da civilização para a cultura tem uma dificuldade acrescida em relação à constituição de uma civilização.
Na “contra-corrente” e numa procura de resposta à questão “Quem se interessa pela cultura?” Vergílio Ferreira afirma que “A cultura é um problema que tem que ver com os nossos cromossomas e tem a dimensão secreta, oculta, privada, íntima, de uma vivência sagrada.” Descrente, dizia-nos então que nem as ‘pessoas cultivadas’ dela queriam saber. Esta é uma reflexão que com frequência damos por nós a fazer e para a qual não encontramos uma resposta mais ou menos válida que tantas outras.
Sophia de Mello Breyner afirma que “a cultura é uma das formas de libertação do Homem”. A nós, instituições de defesa da cultura e do património, atribui a responsabilidade maior da sua defesa e apoio, a mesma que deve ser atribuída à defesa e salvaguarda da identidade de um povo, mas sempre garantindo-lhe a autonomia e a liberdade.
Mas este não pode ser um trabalho solitário. Então o que fazer? O que esperar? Há de facto uma responsabilidade de cada um de nós enquanto indivíduos nesta defesa e promoção da nossa cultura. Recorrendo às palavras de Eduardo Prado Coelho que numa entrevista dizia que “A cultura é da ordem do ser, a civilização é a da ordem do ter.” Assim, temos que ser cada vez mais Cultura. “A cultura é a curiosidade em ir crescendo por dentro, alargando os horizontes da nossa paisagem interior. Isto significa que cada um deve tentar nutrir-se de arte, literatura, pintura, poesia, fotografia...” (Enrique Rojas, 2005).
Mantemos assim o sonho, a esperança, o desejo, e a vontade constante de um trabalho neste sentido, de continuar incessantemente a contribuir para as dinâmicas que conduzam a este crescimento e, reconhecimento colectivo e individual da nossa Cultura.
Recorrendo mais uma vez às palavras certeiras de outro sábio da literatura, temos que encontrar o equilíbrio entre estes dois horizontes: o da saudade de um passado glorioso e o da ilusão de um futuro resplandescente. Como entidade que perspectivamos como facilitadora da cultura, das artes e do património, seguiremos procurando a soma de vontades que contribua para uma sociedade mais cultural.
Que 2015 seja um ano de muita Felicidade!
Alexandra Rodrigues Gonçalves, Diretora Regional de Cultura
Os Dois Horizontes
Dois horizontes fecham nossa vida:
(…)Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.Dois horizontes fecham nossa vida. (Machado de Assis, in 'Crisálidas')






